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ATERRA. ATERRA.

  • há 6 horas
  • 3 min de leitura

Há dias em que uma pessoa quer mandar tudo para o caralho.


Pronto. Disse.


Agora que já tirámos isto do caminho, podemos conversar como adultos.


Porque há dias assim.


Às vezes nem aconteceu nenhuma tragédia.


É só uma coisa aqui.

Outra ali.

Alguém que disse o que não devia.

Outro que não disse absolutamente nada quando devia.

Um problema que já estava resolvido e, aparentemente, ficou com saudades nossas.

Uma mensagem.

Uma conta.

Uma obrigação.

Uma pessoa que naquele dia respira um bocadinho mais alto do que devia.


E pronto.


Chegamos ao limite.


“Sabes que mais? Chega.”


E durante uns minutos, mandar tudo para o caralho parece não só uma opção…


mas um excelente plano de vida.


Na nossa cabeça, já fizemos tudo.


Já dissemos aquilo que estava atravessado há três meses.


Já mandámos a mensagem.


Já bloqueámos duas pessoas.


Já pedimos demissão.


Já decidimos que não precisamos de ninguém.


E, dependendo do nível de irritação, já estamos num aeroporto com uma mala pequena, óculos de sol e um bilhete só de ida para um sítio onde ninguém sabe o nosso nome.


E o mais curioso é que, nesse filme mental, estamos sempre muito bem.


Cabelo impecável.


Passo decidido.


Zero problemas financeiros.


Ninguém nos pergunta nada.


Uma nova vida começa às 16:45 de uma terça-feira.


É lindo.


Só há uma pequena falha no plano:


o dia seguinte.


Porque ninguém imagina a parte em que, três horas depois, provavelmente estaríamos sentados na cozinha a olhar para uma torrada e a pensar:


“Pronto. E agora?”


Felizmente, às vezes acontece uma coisa extraordinária.


Cinco minutos de lucidez.


O cérebro, que aparentemente tinha saído para fumar um cigarro, regressa.


— Desculpa, estive fora. O que é que estamos a fazer?


— Vou mandar tudo para o caralho.


— Certo. E depois?



E depois?


Que pergunta irritante.


Porque não tínhamos pensado no depois.


O depois não fazia parte do plano.


Estávamos muito ocupados a ser dramáticos e extremamente decididos.


Mas é precisamente aí que começamos a perceber uma coisa:


há decisões que dão uma satisfação extraordinária durante sete minutos…


e consequências durante bastante mais tempo.


E começa a negociação interna.


Aterra.


— Mas eu estou farta.


Eu sei. Aterra.


— Mas apetecia-me dizer-lhe umas coisas.


Também sei. Aterra.


— Só uma mensagem…


NÃO. LARGA O TELEMÓVEL.


— Mas eu já escrevi.


APAGA.


— Posso pelo menos guardar nos rascunhos?



Está bem. Mas ninguém toca em “Enviar”.


Porque a verdade é que aquilo que sentimos não deixa de ser válido só porque decidimos não explodir.


Podemos estar fartos.


Podemos ter razão.


Podemos estar magoados, irritados, cansados ou simplesmente num daqueles dias em que a humanidade inteira parece estar a testar a nossa evolução espiritual.


E, sim, às vezes há alguém que merece genuinamente ser enviado para um sítio bastante distante.


Mas talvez não seja necessário comprar-lhe o bilhete.


Há uma diferença entre sentir uma coisa e ter de fazer alguma coisa com ela imediatamente.


Demorei algum tempo a perceber isto.


Nem todas as mensagens precisam de ser enviadas.


Nem todas as respostas precisam de ser dadas naquele momento.


Nem todas as decisões precisam de ser tomadas no exato minuto em que estamos mais zangados.


E nem toda a vontade de fugir significa que precisamos realmente de ir embora.


Às vezes precisamos apenas de deixar passar os cinco minutos em que somos…


uma péssima ideia com pernas.


E talvez crescer seja um bocadinho isto.


Não é deixar de ter vontade de mandar tudo para o caralho.


Isso seria pedir demasiado.


É continuar a ter exatamente essa vontade…


mas conseguir esperar cinco minutos antes de o fazer.


Cinco minutos para perguntar:


“Isto vai levar-me onde eu quero chegar?”


Se a resposta for não…


Aterra.


Não porque mudaste de opinião.


Não porque afinal está tudo bem.


Não porque aquela pessoa deixou subitamente de te irritar.


Também não vamos exagerar.


Aterra simplesmente porque não queres que cinco minutos de raiva decidam os próximos cinco meses da tua vida.


Depois logo decides.


Amanhã, se ainda quiseres mudar de emprego, de cidade, de país, bloquear metade da lista de contactos e começar uma nova vida numa cabana no meio do nada…


analisamos.


Hoje?


Larga o telemóvel.


Bebe qualquer coisa.


Vai dar uma volta.


E espera que o cérebro volte do cigarro.


Normalmente volta.


Às vezes demora.


Mas volta.


Aterra.


Aterra.


E depois logo se vê.

 
 
 

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