COM NINGUÉM. POR NINGUÉM. DE NINGUÉM.
- há 4 horas
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Há um momento em que percebemos que algumas coisas não deviam precisar de ser negociadas.
A nossa paz, por exemplo.
A nossa dignidade.
A forma como queremos ser tratadas.
Durante muito tempo, confundimos amor com esforço. Achamos bonito insistir. Tentar mais uma vez. Explicar melhor. Dar outra oportunidade. Esperar mais um pouco.
Como se amar muito fosse argumento suficiente para fazer duas pessoas resultar.
Não é.
Há relações em que vamos cedendo pequenas partes de nós sem perceber.
Primeiro, mudamos uma frase para evitar uma discussão.
Depois, deixamos de dizer aquilo que sentimos porque sabemos que vai incomodar.
Mais tarde, começamos a aceitar comportamentos que, vistos de fora, nunca aconselharíamos a alguém que amamos.
E um dia olhamos para nós próprias e percebemos:
eu nunca quis tornar-me esta pessoa.
A pessoa que mede palavras.
Que interpreta silêncios.
Que espera mensagens.
Que procura explicações para aquilo que, no fundo, já lhe está a fazer mal.
Não quero estar com ninguém apenas para não estar sozinha.
Não quero transformar-me por ninguém para caber na ideia que alguém tem de uma relação.
E não quero ser de ninguém ao ponto de deixar de ser minha.
Porque amor não devia significar perder espaço dentro da própria vida.
Não devia exigir que uma pessoa se diminuísse para que a outra se sentisse confortável.
Não devia fazer-nos passar mais tempo a tentar perceber se somos amadas do que simplesmente a sentir que somos.
Há uma diferença enorme entre lutar por uma relação e lutar constantemente para que alguém queira estar nela.
A primeira pode ser amor.
A segunda, muitas vezes, é apenas desgaste.
E talvez crescer seja também perceber isto:
há pessoas que podemos amar profundamente e, ainda assim, não poderemos continuar a acompanhar.
Não porque deixaram de importar.
Mas porque, algures pelo caminho, para continuarmos ao lado delas teríamos de abandonar demasiado de nós.
E há também uma frase que repetimos vezes demais quando tentamos justificar alguém:
“No fundo, é uma pessoa boa.”
Mas não estamos à procura de petróleo.
A bondade não devia estar enterrada a quilómetros de profundidade, escondida debaixo de comportamentos que magoam, de palavras que não coincidem com ações e de desculpas sucessivas.
A bondade deve ser vista na superfície.
Na forma como alguém nos trata quando está irritado.
Na maneira como termina uma conversa difícil.
Na responsabilidade que assume depois de magoar.
Na empatia que demonstra quando já não tem nada a ganhar.
Porque é muito fácil parecer bom quando tudo está bem.
É quando alguma coisa deixa de ser conveniente que o carácter começa realmente a aparecer.
E eu já não quero viver de potencial.
Não quero amar aquilo que alguém poderia ser enquanto sofro com aquilo que essa pessoa efetivamente é comigo.
Com ninguém.
Por ninguém.
De ninguém.
Quero amar sem desaparecer.
Quero ficar sem ter de implorar para ficar.
Quero escolher alguém que também me escolha — não apenas quando sente saudades, não apenas quando é conveniente, não apenas quando tem medo de me perder.
Quero reciprocidade no presente.
Porque no fim, antes de pertencer a qualquer história, a qualquer relação, a qualquer pessoa…
eu tenho de continuar a pertencer a mim



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