AVIÕES DE PAPEL
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Há qualquer coisa de bonita num avião de papel.
Talvez porque ele nasce de uma coisa banal, de uma folha e, de repente, ganha uma espécie de ambição.
Deixa de ser apenas papel.
Quer voar.
Quando fazemos um avião de papel, nunca o fazemos para ficar pousado em cima da mesa. Dobramos as pontas, alinhamos as asas, apertamos as dobras e, no fim, seguramo-lo por um instante como se estivéssemos prestes a testar uma teoria.
Depois lançamos.
E é aí que começa a parte interessante.
Porque podemos fazer exatamente os mesmos movimentos, usar o mesmo tipo de papel, lançar com praticamente a mesma força… e ainda assim dois aviões nunca fazem exatamente o mesmo percurso.
Um sobe imediatamente.
Outro faz uma curva estranha e acaba debaixo de uma cadeira.
Um parece que encontrou uma corrente de ar invisível e atravessa a sala inteira.
Outro mal sai da nossa mão e decide que aquela experiência de voar não era para ele.
E depois há aqueles que começam lindamente.
Ganham altitude, deslizam, parecem perfeitamente equilibrados e, durante alguns segundos, pensamos:
“Este vai longe.”
Até que, sem aviso, inclinam uma asa e caem.
Talvez seja isso que sempre achei fascinante nos aviões de papel:
eles têm intenção, mas não têm garantias.
Nós sabemos porque os lançamos.
Não sabemos onde vão parar.
Podemos escolher o papel.
Podemos fazer as dobras com cuidado.
Podemos corrigir uma asa.
Podemos escolher o ângulo.
Podemos até treinar o lançamento.
Mas, no momento em que o avião deixa a nossa mão, há uma parte da história que já não nos pertence.
O ar interfere. A direção muda. A força perde-se.
É difícil não pensar na quantidade de coisas na vida que começam exatamente assim.
Planos.
Projetos.
Decisões.
Mudanças.
Pessoas.
Ideias que, quando ainda estão nas nossas mãos, parecem perfeitamente dobradas.
Olhamos para elas e pensamos que sabemos exatamente para onde vão.
Depois lançamos.
E descobrimos que intenção e resultado não são a mesma coisa.
Há coisas que começamos convencidos de que vão durar muito tempo e caem quase imediatamente.
Outras começam mal, fazem uma trajetória meio torta, quase tocam no chão… e, de alguma forma, continuam.
Algumas chegam muito mais longe do que alguma vez imaginámos.
E outras simplesmente vão numa direção que não era aquela que tínhamos previsto.
O curioso é que um avião de papel nunca promete nada.
Não promete distância.
Não promete estabilidade.
Não promete sequer que vai voar.
Nós é que criamos a expectativa no momento em que o lançamos.
Talvez por isso seja tão frustrante quando cai depressa.
Porque há coisas que não dependem apenas da forma como foram construídas.
Dependem do momento.
Da força.
Do ambiente.
Da direção do ar.
E de pequenas variáveis que só percebemos depois de o avião já ter saído da nossa mão.
Há ainda outra coisa curiosa:
quando um avião de papel cai, quase nunca o deixamos ali.
Pegamos nele.
Endireitamos uma ponta.
Ajustamos uma asa.
Às vezes fazemos uma dobra nova.
E lançamos outra vez.
Nem sempre funciona.
Mas às vezes aquele pequeno ajuste muda completamente o voo.
Talvez a vida também tenha um pouco disso.
Nem tudo o que cai estava condenado desde o início.
Nem tudo o que sobe vai permanecer no ar.
Nem tudo o que muda de direção está perdido.
E nem tudo o que não chegou onde queríamos foi necessariamente um fracasso.
Às vezes só fez outra rota.
No fundo, talvez um avião de papel seja uma pequena experiência sobre controlo.
Fazemos o melhor que conseguimos enquanto ele está nas nossas mãos.
Depois chega o momento em que temos de largar.
E ver o que acontece.
Talvez seja por isso que continuamos a lançá-los.
Não porque sabemos que vão voar.
Mas precisamente porque não sabemos.



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