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EU VIM DE FÉRIAS. HÁ EXAME NO FIM?

há 22 horas
3 min de leitura

Há quem marque uma viagem e comece logo a pesquisar museus, movimentos artísticos e a história da cidade.


Eu também pesquiso.


Restaurantes, vistas, sítios bonitos e onde se pode beber qualquer coisa com um piano a tocar ao fundo. Cada pessoa prepara-se como pode.


Há quem chegue a uma cidade e saiba que aquele edifício é um excelente exemplo de arquitetura neogótica.


Eu chego, olho e penso: “Que coisa linda. De onde é que se tira a melhor fotografia?”


Estamos as duas a apreciar o edifício. Uma tem só mais vocabulário.


Há pessoas que entram num museu e ficam três horas fascinadas. Leem as descrições, aproximam-se, afastam-se, reconhecem o pintor antes de olhar para o nome. Eu admiro essa capacidade. A sério.


Mas também consigo ficar fascinada durante bastante tempo com uma esplanada virada para o rio. Sobretudo se já vier acompanhada de uma carta de bons cocktails ou de sobremesas.


O problema começa quando alguém pergunta:


“Então, foste àquela cidade e não visitaste aquele museu?”


E a pergunta vem com uma expressão que nos faz sentir que acabámos de desperdiçar um bilhete de avião.


Não fui. Passeei, vi coisas bonitas, comi bem, ouvi música, sentei-me a olhar para a cidade e fui muito feliz durante umas horas.


Peço desculpa. Não sabia que havia exame no regresso.


Não fui ao museu. Podemos continuar amigos?


Há quem viaje para compreender a história de um lugar. Quer saber quem construiu, quem viveu ali, o que aconteceu naquela praça e porque é que aquela fachada é importante.


Há quem queira atravessar a praça devagar, entrar numa rua sem saber onde vai dar e descobrir um restaurante onde apeteça ficar.


Uma pessoa leva uma lista de monumentos. A outra tem dez restaurantes guardados para uma viagem de cinco dias.


Ambas vão ter de fazer escolhas difíceis.


Há também quem tenha pontos muito específicos da cidade que quer ver. Aquela torre, aquela ponte, aquele miradouro. Vai de um ao outro, segue o mapa e risca a lista.


Eu subo num balão a 150 metros e, em 15 minutos, vejo a cidade toda por cima.


“Foste ver aquele sítio?”


“Vi. E aquele ao lado também.”


Está bem, não vi os pormenores. Mas fiquei com uma excelente visão geral e tempo para almoçar.


E depois há os famosos sítios “instagramáveis”, ditos às vezes com aquele tom de quem acabou de encontrar uma falha grave no carácter de alguém.


Sim, gosto de sítios bonitos para fotografar.


Gosto da luz, da vista, de uma mesa bem posta e de um rooftop de onde se vê a cidade inteira. Se tiver uma fotografia bonita minha pelo meio, também não vou apresentar queixa.


Isso não significa que tenha passado a viagem toda a olhar para um ecrã. Significa que achei alguma coisa bonita e quis ficar com ela registada.


Também há fotografias de quadros nos telemóveis de quem vai aos museus. Só muda o enquadramento.


Claro que estes dois tipos de viajantes se podem encontrar na mesma pessoa.


De manhã, uma igreja. Ao almoço, um prato típico. À tarde, um museu. Ao fim do dia, um cocktail com vista.


Ou só duas destas coisas, porque estamos de férias e os pés também têm direito a participar nas decisões.


A verdadeira prova de compatibilidade acontece quando essas duas versões de nós entram em conflito durante a própria viagem.


Uma diz: “Amanhã saímos às oito para aproveitar bem o dia.”


A outra responde: “Às oito ainda estou a aproveitar bem a cama.”


Uma quer ver seis monumentos antes do almoço. A outra quer tomar o pequeno-almoço num sítio bonito, com calma, e logo se vê.


Há pessoas que às vezes saem do hotel com a intenção de caminhar junto ao rio, mas, pelo caminho, veem um cartaz que as incentiva a entrar num museu e, quando dão conta, estão numa visita guiada de duas horas.


Nem sempre vale a pena. Às vezes, ao fim de vinte minutos, já estão arrependidas.


Por isso, eu gosto de conhecer lugares à minha maneira. Caminhar, observar pessoas, descobrir vistas, provar coisas e parar quando me apetece. Posso não voltar a casa a saber explicar o estilo de uma fachada, mas lembro-me perfeitamente de como me senti sentada à frente dela.


E também me lembro do que comi. Tenho as minhas áreas de especialização.


Tu sabes quem construiu o palácio. Eu sei onde se almoça com vista para ele.


Talvez o seis entre no palácio para conhecer a história.


O nove sobe ao rooftop para ver o palácio inteiro.


No fim, os dois dizem: “Tens mesmo de ir. É incrível.”


Cada um aproveita a viagem à sua maneira. E, embora nem sempre a vida nos dê tudo o que queremos, eu já tenho uma coisa: a data da próxima.


O roteiro logo se vê. Convém primeiro saber onde se come.

 
 
 

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