INTUIÇÃO TAMBÉM FALHA.
Bastam três segundos.
Um olhar.
Uma roupa.
Uma forma de falar.
Uma postura.
Uma cara fechada.
Uma gargalhada alta demais.
E já decidimos muita coisa.
“Não gosto dela.”
“Ele parece arrogante.”
“Ela tem bom coração.”
“Esse tipo não me inspira confiança.”
Depois damos um nome bonito a isso:
intuição.
Às vezes é. Às vezes não é. Às vezes o nosso cérebro apanha sinais reais antes de conseguirmos explicá-los. Um tom estranho. Uma incoerência. Um desconforto difícil de traduzir. E convém não ignorar sempre isso.
Mas há o outro lado. Às vezes aquilo a que chamamos intuição é só preconceito com boa apresentação.
É experiência passada, projeção, medo. É alguém lembrar-nos outra pessoa. É uma roupa que associamos a um determinado tipo de gente. É um sotaque, uma tatuagem, uma profissão.É uma maneira de estar.
E em três segundos já construímos uma história inteira sobre alguém que ainda nem abriu a boca.
O mais perigoso é que depois começamos a procurar provas de que tínhamos razão. Se a pessoa sorri, pensamos que está a fingir. Se fica calada, é antipática. Se fala muito, é exibida. Se se defende, confirma aquilo que já tínhamos decidido.
No fundo, muitas vezes não estamos a conhecer alguém, estamos apenas a confirmar a primeira impressão que criámos.
Mas também seria ingénuo dizer que primeiras impressões não valem nada. Valem. Só não valem tudo.
Há pessoas que nos causam uma boa impressão e depois desiludem. Há pessoas que nos irritam à primeira vista e acabam por ser extraordinárias. Há quem pareça frio porque é tímido e quem pareça confiante porque aprendeu a esconder insegurança. Há quem pareça distante porque está simplesmente cansado e há quem pareça encantador precisamente porque sabe muito bem causar boa impressão.
É aqui que entram as duas perspetivas.
De um lado:
“Confia no teu instinto.”
Do outro:
“Dá tempo suficiente à realidade para contradizer o teu instinto.”
E às vezes o erro não está no julgar depressa, o próprio cérebro faz isso.
O erro está em transformar um primeiro palpite numa sentença definitiva. Muitas vezes a intuição protege-nos e outras tantas apenas revela os nossos próprios filtros.
Por isso, talvez valha a pena fazer uma pergunta antes de decidir quem alguém é:
“Estou a perceber esta pessoa ou estou apenas a reconhecê-la através das minhas próprias histórias?”
Porque três segundos podem dizer alguma coisa mas raramente dizem tudo.



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