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INTUIÇÃO TAMBÉM FALHA.

9 de out.
2 min de leitura

Bastam três segundos.

Um olhar.

Uma roupa.

Uma forma de falar.

Uma postura.

Uma cara fechada.

Uma gargalhada alta demais.


E já decidimos muita coisa.

“Não gosto dela.”

“Ele parece arrogante.”

“Ela tem bom coração.”

“Esse tipo não me inspira confiança.”


Depois damos um nome bonito a isso:


intuição.


Às vezes é. Às vezes não é. Às vezes o nosso cérebro apanha sinais reais antes de conseguirmos explicá-los. Um tom estranho. Uma incoerência. Um desconforto difícil de traduzir. E convém não ignorar sempre isso.


Mas há o outro lado. Às vezes aquilo a que chamamos intuição é só preconceito com boa apresentação.


É experiência passada, projeção, medo. É alguém lembrar-nos outra pessoa. É uma roupa que associamos a um determinado tipo de gente. É um sotaque, uma tatuagem, uma profissão.É uma maneira de estar.

E em três segundos já construímos uma história inteira sobre alguém que ainda nem abriu a boca.


O mais perigoso é que depois começamos a procurar provas de que tínhamos razão. Se a pessoa sorri, pensamos que está a fingir. Se fica calada, é antipática. Se fala muito, é exibida. Se se defende, confirma aquilo que já tínhamos decidido.


No fundo, muitas vezes não estamos a conhecer alguém, estamos apenas a confirmar a primeira impressão que criámos.


Mas também seria ingénuo dizer que primeiras impressões não valem nada. Valem. Só não valem tudo.


Há pessoas que nos causam uma boa impressão e depois desiludem. Há pessoas que nos irritam à primeira vista e acabam por ser extraordinárias. Há quem pareça frio porque é tímido e quem pareça confiante porque aprendeu a esconder insegurança. Há quem pareça distante porque está simplesmente cansado e há quem pareça encantador precisamente porque sabe muito bem causar boa impressão.


É aqui que entram as duas perspetivas.


De um lado:


“Confia no teu instinto.”


Do outro:


“Dá tempo suficiente à realidade para contradizer o teu instinto.”


E às vezes o erro não está no julgar depressa, o próprio cérebro faz isso.


O erro está em transformar um primeiro palpite numa sentença definitiva. Muitas vezes a intuição protege-nos e outras tantas apenas revela os nossos próprios filtros.


Por isso, talvez valha a pena fazer uma pergunta antes de decidir quem alguém é:


“Estou a perceber esta pessoa ou estou apenas a reconhecê-la através das minhas próprias histórias?”


Porque três segundos podem dizer alguma coisa mas raramente dizem tudo.

 
 
 

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