QUANDO UM PONTO DE VISTA É CRUCIAL
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Há uma imagem que circula há anos: duas pessoas frente a frente, um número desenhado no chão entre elas.
Uma olha e vê um 6.
A outra olha e vê um 9.
E as duas têm a certeza de que estão certas.
Sempre gostei dessa imagem. Talvez porque resume uma coisa que demoramos demasiado tempo a aprender: ver a mesma coisa não significa vê-la da mesma maneira.
Depende de onde estamos. Do que vivemos. Do que sabemos. Do que sentimos. E, às vezes, simplesmente do lado em que estamos sentados.
Às vezes, 6 é um 9.
Não para provar que toda a gente tem razão. Nem para dizer que não existem verdades. Mas porque, entre aquilo que aconteceu e aquilo que cada um acredita que aconteceu, cabe muitas vezes uma história inteira.
E é precisamente essa história que me interessa.
Aquilo que existe entre o preto e o branco. Entre o certo e o errado. Entre o que eu vejo e aquilo que tu vês.
Durante muito tempo achei que compreender o outro significava concordar com ele. Hoje penso diferente.
Posso tentar perceber o teu 9 sem deixar de ver o meu 6.
Posso escutar a tua versão sem apagar a minha.
E talvez seja aí que começam algumas das conversas mais interessantes: quando deixamos de tentar decidir quem está certo e começamos a perguntar de onde é que cada um está a olhar.
Há discussões que talvez não comecem porque alguém está errado.
Começam porque duas pessoas estão a olhar para o mesmo momento de lugares diferentes.
Uma diz: “eu calei-me porque precisava de tempo.”
A outra ouviu: “não me importo o suficiente para falar contigo.”
Uma diz: “eu só estava a tentar explicar-me.”
A outra sentiu: “não estás a ouvir nada do que eu digo.”
Uma aproxima-se porque precisa de resolver.
A outra afasta-se porque precisa de espaço para conseguir pensar.
E, de repente, já ninguém está a falar sobre aquilo que aconteceu.
Estamos a reagir àquilo que achamos que o outro quis dizer.
Talvez seja aí que um 6 se transforma tão facilmente num 9.
A intenção de alguém não apaga o impacto que teve em nós. Mas o impacto que sentimos também não nos diz, necessariamente, qual era a intenção do outro.
O difícil talvez não seja aceitar que existem duas perspetivas.
O difícil é aquilo que acontece quando precisamos que a nossa seja reconhecida.
Porque há uma diferença entre dizer:
“Eu vejo um 6.”
e dizer:
“É um 6. E se tu vês um 9, estás errado.”
É nessa pequena diferença que muitas conversas se perdem.
Ouvir o outro não exige que eu abandone aquilo que vivi. E validar aquilo que alguém sentiu não significa assumir uma culpa que não reconheço.
Significa apenas conseguir dizer:
“Eu não vi dessa maneira. Mas consigo perceber que, do lugar onde estavas, foi assim que viste.”
Talvez compreender alguém seja isso.
Não mudar de lugar para sempre. Não fingir que o 6 deixou de ser um 6 só porque, do outro lado, alguém vê um 9.
É levantar-me por um instante e caminhar até ao outro lado.
Olhar.
E pensar:
Ah. Daqui, realmente parece um 9.
Depois posso voltar ao meu lugar.
Continuo a ver um 6.
Mas já não preciso de acreditar que, para eu estar certa, tu tens de estar errado.
Talvez o problema nunca tenha sido o número.
Talvez tenha sido passarmos tanto tempo a tentar provar aquilo que víamos, que nos esquecemos de perguntar ao outro:
“Mostras-me de onde estás a olhar?”
Porque, às vezes, é um 6.
Às vezes, é um 9.
E, às vezes, são os dois.



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