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QUANDO UM PONTO DE VISTA É CRUCIAL

  • há 1 dia
  • 3 min de leitura

Há uma imagem que circula há anos: duas pessoas frente a frente, um número desenhado no chão entre elas.


Uma olha e vê um 6.

A outra olha e vê um 9.


E as duas têm a certeza de que estão certas.


Sempre gostei dessa imagem. Talvez porque resume uma coisa que demoramos demasiado tempo a aprender: ver a mesma coisa não significa vê-la da mesma maneira.


Depende de onde estamos. Do que vivemos. Do que sabemos. Do que sentimos. E, às vezes, simplesmente do lado em que estamos sentados.



Às vezes, 6 é um 9.


Não para provar que toda a gente tem razão. Nem para dizer que não existem verdades. Mas porque, entre aquilo que aconteceu e aquilo que cada um acredita que aconteceu, cabe muitas vezes uma história inteira.


E é precisamente essa história que me interessa.


Aquilo que existe entre o preto e o branco. Entre o certo e o errado. Entre o que eu vejo e aquilo que tu vês.


Durante muito tempo achei que compreender o outro significava concordar com ele. Hoje penso diferente.


Posso tentar perceber o teu 9 sem deixar de ver o meu 6.


Posso escutar a tua versão sem apagar a minha.


E talvez seja aí que começam algumas das conversas mais interessantes: quando deixamos de tentar decidir quem está certo e começamos a perguntar de onde é que cada um está a olhar.


Há discussões que talvez não comecem porque alguém está errado.


Começam porque duas pessoas estão a olhar para o mesmo momento de lugares diferentes.


Uma diz: “eu calei-me porque precisava de tempo.”


A outra ouviu: “não me importo o suficiente para falar contigo.”


Uma diz: “eu só estava a tentar explicar-me.”


A outra sentiu: “não estás a ouvir nada do que eu digo.”


Uma aproxima-se porque precisa de resolver.


A outra afasta-se porque precisa de espaço para conseguir pensar.


E, de repente, já ninguém está a falar sobre aquilo que aconteceu.


Estamos a reagir àquilo que achamos que o outro quis dizer.


Talvez seja aí que um 6 se transforma tão facilmente num 9.


A intenção de alguém não apaga o impacto que teve em nós. Mas o impacto que sentimos também não nos diz, necessariamente, qual era a intenção do outro.


O difícil talvez não seja aceitar que existem duas perspetivas.


O difícil é aquilo que acontece quando precisamos que a nossa seja reconhecida.


Porque há uma diferença entre dizer:


“Eu vejo um 6.”


e dizer:


“É um 6. E se tu vês um 9, estás errado.”


É nessa pequena diferença que muitas conversas se perdem.


Ouvir o outro não exige que eu abandone aquilo que vivi. E validar aquilo que alguém sentiu não significa assumir uma culpa que não reconheço.


Significa apenas conseguir dizer:


“Eu não vi dessa maneira. Mas consigo perceber que, do lugar onde estavas, foi assim que viste.”


Talvez compreender alguém seja isso.


Não mudar de lugar para sempre. Não fingir que o 6 deixou de ser um 6 só porque, do outro lado, alguém vê um 9.


É levantar-me por um instante e caminhar até ao outro lado.


Olhar.


E pensar:


Ah. Daqui, realmente parece um 9.


Depois posso voltar ao meu lugar.


Continuo a ver um 6.


Mas já não preciso de acreditar que, para eu estar certa, tu tens de estar errado.


Talvez o problema nunca tenha sido o número.


Talvez tenha sido passarmos tanto tempo a tentar provar aquilo que víamos, que nos esquecemos de perguntar ao outro:


“Mostras-me de onde estás a olhar?”


Porque, às vezes, é um 6.


Às vezes, é um 9.


E, às vezes, são os dois.

 
 
 

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