RECIPROCIDADE OU VINGANÇA?
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Há uma palavra de que gostamos muito: reciprocidade.
Normalmente usamos para coisas bonitas.
Dás-me carinho, devolvo carinho.
Respeitas-me, respeito-te.
Estás presente, estou presente.
Cuidas de mim, cuido de ti.
Parece simples.
Mas ninguém disse que a reciprocidade tinha de existir apenas no bom sentido.
Se me ignoras, posso começar a ignorar-te.
Se deixas de estar disponível para mim, posso deixar de estar disponível para ti.
Se me tratas com frieza, posso responder-te com frieza.
E, do meu lado, posso pensar:
“Estou apenas a devolver a energia que recebi.”
Do teu lado:
“Estás a fazer isto para te vingares.”
Então, onde acaba a reciprocidade e começa a vingança?
Talvez a diferença não esteja necessariamente naquilo que fazemos.
Talvez esteja no porquê.
Posso afastar-me porque continuar a oferecer presença a alguém que não me oferece o mesmo me está a fazer mal.
Ou posso afastar-me porque quero que sintas a minha ausência.
Por fora, o comportamento é igual.
Por dentro, talvez não seja.
Mas somos humanos. E raramente fazemos as coisas por uma única razão.
Talvez eu precise de me proteger e, ao mesmo tempo, exista uma parte de mim que gostaria que sentisses a minha falta.
Talvez seja reciprocidade.
Talvez seja vingança.
Talvez seja um pouco das duas.
Há ainda outro problema: tu não consegues ver a minha intenção.
Vês apenas aquilo que eu faço.
Eu posso sentir que estou a estabelecer um limite.
Tu podes sentir que estou a castigar-te.
E talvez nenhum dos dois esteja necessariamente a mentir.
Quando a reciprocidade é positiva, raramente questionamos a intenção.
Se me tratas com carinho e eu respondo com carinho, ninguém chama vingança à correspondência.
Mas quando aquilo que devolvemos é desagradável, a palavra muda rapidamente.
Deixa de ser reciprocidade.
Passa a ser vingança.
Talvez porque gostamos muito da reciprocidade quando aquilo que regressa até nós é bom.
Mas também existe uma armadilha: chamar “reciprocidade” a tudo aquilo que fazemos em resposta aos outros pode ser uma forma conveniente de não assumirmos responsabilidade pelas nossas próprias escolhas.
“Tu fizeste primeiro.”
Pode ser verdade.
Mas continua a existir uma escolha entre aquilo que me fizeram e aquilo que eu decido fazer a seguir.
Se alguém me magoa e eu decido deixar de estar disponível, isso pode ser um limite.
Se procuro uma maneira de o magoar exatamente onde sei que dói e digo “só devolvi o que recebi”, talvez reciprocidade seja apenas uma palavra mais bonita para vingança.
Por isso, talvez a pergunta mais importante seja:
“O que quero que aconteça à outra pessoa quando faço isto?”
Quero proteger-me?
Quero recuperar equilíbrio?
Ou quero que doa?
Porque se o objetivo é que sintas aquilo que eu senti, talvez a vingança já tenha entrado na sala — mesmo que eu continue a chamar-lhe reciprocidade.
Mas se aquilo que estou a fazer te parece vingança apenas porque, pela primeira vez, estás a receber aquilo que me davas…
será mesmo vingança?
Um comportamento.
Duas interpretações.
Uma pessoa vê reciprocidade.
A outra vê vingança.
Um vê um 6.
O outro vê um 9.
E talvez a diferença esteja num lugar onde ninguém, além de nós próprios, consegue realmente entrar:
na intenção.
Por isso, antes de lhe chamarmos reciprocidade ou vingança, talvez baste uma pergunta:
“Estou a proteger-me ou estou a tentar fazer-te sentir aquilo que eu senti?”
Talvez seja reciprocidade.
Talvez seja vingança.
Talvez dependa de onde estás a olhar.



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