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RECIPROCIDADE OU VINGANÇA?

  • há 1 dia
  • 3 min de leitura

Há uma palavra de que gostamos muito: reciprocidade.


Normalmente usamos para coisas bonitas.


Dás-me carinho, devolvo carinho.

Respeitas-me, respeito-te.

Estás presente, estou presente.

Cuidas de mim, cuido de ti.


Parece simples.


Mas ninguém disse que a reciprocidade tinha de existir apenas no bom sentido.


Se me ignoras, posso começar a ignorar-te.


Se deixas de estar disponível para mim, posso deixar de estar disponível para ti.


Se me tratas com frieza, posso responder-te com frieza.


E, do meu lado, posso pensar:


“Estou apenas a devolver a energia que recebi.”


Do teu lado:


“Estás a fazer isto para te vingares.”


Então, onde acaba a reciprocidade e começa a vingança?


Talvez a diferença não esteja necessariamente naquilo que fazemos.


Talvez esteja no porquê.


Posso afastar-me porque continuar a oferecer presença a alguém que não me oferece o mesmo me está a fazer mal.


Ou posso afastar-me porque quero que sintas a minha ausência.


Por fora, o comportamento é igual.


Por dentro, talvez não seja.


Mas somos humanos. E raramente fazemos as coisas por uma única razão.


Talvez eu precise de me proteger e, ao mesmo tempo, exista uma parte de mim que gostaria que sentisses a minha falta.


Talvez seja reciprocidade.


Talvez seja vingança.


Talvez seja um pouco das duas.


Há ainda outro problema: tu não consegues ver a minha intenção.


Vês apenas aquilo que eu faço.


Eu posso sentir que estou a estabelecer um limite.


Tu podes sentir que estou a castigar-te.


E talvez nenhum dos dois esteja necessariamente a mentir.


Quando a reciprocidade é positiva, raramente questionamos a intenção.


Se me tratas com carinho e eu respondo com carinho, ninguém chama vingança à correspondência.


Mas quando aquilo que devolvemos é desagradável, a palavra muda rapidamente.


Deixa de ser reciprocidade.


Passa a ser vingança.


Talvez porque gostamos muito da reciprocidade quando aquilo que regressa até nós é bom.


Mas também existe uma armadilha: chamar “reciprocidade” a tudo aquilo que fazemos em resposta aos outros pode ser uma forma conveniente de não assumirmos responsabilidade pelas nossas próprias escolhas.


“Tu fizeste primeiro.”


Pode ser verdade.


Mas continua a existir uma escolha entre aquilo que me fizeram e aquilo que eu decido fazer a seguir.


Se alguém me magoa e eu decido deixar de estar disponível, isso pode ser um limite.


Se procuro uma maneira de o magoar exatamente onde sei que dói e digo “só devolvi o que recebi”, talvez reciprocidade seja apenas uma palavra mais bonita para vingança.


Por isso, talvez a pergunta mais importante seja:


“O que quero que aconteça à outra pessoa quando faço isto?”


Quero proteger-me?


Quero recuperar equilíbrio?


Ou quero que doa?


Porque se o objetivo é que sintas aquilo que eu senti, talvez a vingança já tenha entrado na sala — mesmo que eu continue a chamar-lhe reciprocidade.


Mas se aquilo que estou a fazer te parece vingança apenas porque, pela primeira vez, estás a receber aquilo que me davas…


será mesmo vingança?


Um comportamento.


Duas interpretações.


Uma pessoa vê reciprocidade.


A outra vê vingança.


Um vê um 6.


O outro vê um 9.


E talvez a diferença esteja num lugar onde ninguém, além de nós próprios, consegue realmente entrar:


na intenção.


Por isso, antes de lhe chamarmos reciprocidade ou vingança, talvez baste uma pergunta:


“Estou a proteger-me ou estou a tentar fazer-te sentir aquilo que eu senti?”


Talvez seja reciprocidade.


Talvez seja vingança.


Talvez dependa de onde estás a olhar.

 
 
 

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