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VIAJAR SOZINHA

  • há 1 dia
  • 2 min de leitura

Viajar sozinha foi provavelmente uma das coisas que mais fiz na minha vida.


E há quem ache estranho.


“Mas vais sozinha?”


Vou.


“E não te sentes sozinha?”


Não.


Aliás, talvez seja precisamente o contrário.


Para algumas pessoas, viajar sozinho pode parecer solidão.


Para mim, sempre foi uma espécie de reencontro.


Comigo.


Pelo menos uma vez por ano, gosto de fazer uma mala e ir para algum lugar onde, durante uns dias, não preciso de combinar horários, negociar restaurantes, perguntar a ninguém o que quer fazer nem ouvir:


“Mas já vamos?”


Vou quando quero.


Acordo quando quero.


Se quiser ficar duas horas numa esplanada a olhar para pessoas que nunca mais vou ver na vida, fico.


Se quiser andar quinze quilómetros sem destino, ando.


Se decidir que hoje o jantar é às cinco da tarde porque me apetece, ninguém convoca uma reunião para discutir o assunto.


Há uma liberdade muito particular em viajar sozinha.


Mas também há momentos curiosos.


Como entrar num restaurante e dizer:


“Uma mesa para uma pessoa, por favor.”


E perceber aquele microssegundo de hesitação de quem está à nossa frente.


“Só uma?”


Sim.


Uma pessoa inteira.


Obrigada. 😂


Ou chegar a um sítio absolutamente maravilhoso, querer uma fotografia e começar aquele processo pouco digno de escolher um desconhecido com ar suficientemente responsável para lhe entregar o telemóvel.


Porque viajar sozinha também desenvolve competências.


Aprendemos a orientar-nos.


A resolver problemas.


A tomar decisões.


A carregar malas que jurámos, no aeroporto de partida, que não estavam assim tão pesadas.


E aprendemos uma coisa ainda mais interessante:


a nossa própria companhia.


Quando viajamos com alguém, existe sempre conversa, distração, decisões partilhadas.


Quando viajamos sozinhos, há momentos em que não existe ninguém entre nós e os nossos pensamentos.


E eu gosto disso.


Gosto de caminhar por uma cidade onde ninguém me conhece.


Gosto de me sentar sozinha numa praia.


Gosto de observar.


Gosto de decidir o dia à medida que ele acontece.


E gosto, sobretudo, daquela sensação estranha de estar longe de tudo e, ao mesmo tempo, muito perto de mim.


Claro que há coisas que seriam mais fáceis acompanhada.


Há momentos que apetecia partilhar.


Há fotografias que ficariam certamente melhores se não dependessem de um desconhecido com talento fotográfico altamente duvidoso.


Mas viajar sozinha nunca significou, para mim, não ter ninguém com quem viajar.


Significou escolher viajar comigo.


E talvez seja essa a diferença.


Há quem olhe para uma pessoa sentada sozinha num restaurante, num avião ou numa praia e veja solidão.


Eu olho e penso:


liberdade.


Porque estar sozinho e sentir-se sozinho nunca foram exatamente a mesma coisa.


E, pelo menos uma vez por ano, gosto de me lembrar disso.


Faço a mala.


Escolho um lugar.


E vou encontrar-me comigo, algures pelo mundo.

 
 
 

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